terça-feira, abril 10, 2007

Próxima estació: Catalunya

(título propositalmente escrito em catalão)

A imagem pré-instalada (daquelas que nascem com a gente) que eu tinha de Barcelona era de ruas coloridas. Por algum motivo. Já a primeira imagem externa que eu me lembro é da Olimpíada, com "Amigos para siempre" do José Carreras e, claro, "Barcelona". Dizem que a cidade mudou muito naquele 1992. Se ela era feia antes eu não sei, só sei que hoje ela é bonita.

Fiquei hipnotizado desde o momento em que vi as primeiras propagandas em catalão. Eu achava que essa língua fosse só mais uma língua oficial, daquelas que existem em papéis de governo e que não passam muito disso. Engano. Ela está em todos os lugares: das propagandas aos sinais de trânsito, passando por placas de lojas, menus de restaurantes e pixações. Se existem pixações, é porque o povo está envolvido com essa língua estranha que mistura espanhol com francês criando expressões como "si us plau", que significa "por favor". Seria uma versão espanificada de "s'il vous plaît"? No McDonald's, o quarteirão com queijo está escrito em catalão. Barcelona definitivamente não está na Espanha, e sim na Catalunha.

O ônibus entrou no Passeig de Gràcia, uma belíssima avenida da região, e chegou à Plaza de Catalunya, o centro da capital. Rodei durante longos minutos procurando a rua onde deveria entrar pra chegar ao hostel. Ele fica no Bairri Gòtic, a parte medieval da cidade. Todo lugar na Europa tem um quê medieval. Hostel encontrado, saí a andar ainda sob o efeito daquelas drogas pesadas que estava consumindo desde Madri. Com isso perdi os óculos escuros em algum lugar. Procurei minhas "gafas de sol", mas terei de comprar outras. Fato: óculos escuros são descartáveis.

Andei ali pelo Bairro Gótico e voltei pra Plaza Catalunya, de onde peguei o começo das Ramblas e fui descendo até o Port Vell. As Ramblas, se você não sabe, é uma rua que vai mudando de nome durante uns dois quilômetros (é sempre rambla isso, rambla aquilo...) e é lotada de bancas de jornal, artistas de rua, gente vendendo coisas, restaurantes, lojas, turistas e batedores de carteira. O coração da Barcelona turística.

Lá embaixo, a estátua de Colombo apontando para a América indica que chegamos ao Port Vell, que significa Porto Velho em catalão. O cheiro da maresia me levou até La Barceloneta, o bairro que fica ao lado da praia. Andei pela areia e assim foi meu primeiro encontro com o Mediterrâneo. Me sentei pra observar um pouco e até fiquei com calor durante uns três minutos, mas em seguida voltei a sentir o frio da primavera européia. Segui até o Port Olimpic, o novo porto da cidade, e vi a Sagrada Família. Pensei em ir à pé, mas voltei pra descansar no hostel.



Na verdade só dei uma olhada no Lonely Planet e voltei a andar. Dessa vez peguei o Passeig de Gràcia pra ver onde chegava. Qual não foi minha surpresa ao encontrar a Casa Battló no meio do caminho? Eu realmente não tinha idéia que ela ficava ali. Foi o primeiro prédio do Gaudí que cheguei perto. Quis entrar, mas custava mais de dez euros! Bem ao lado ficam outras construções modernas muito conhecidas: a Casa Amatller, projetada por Puig i Cadafalch, e a Casa Lleó Morera, de Domènech i Montaner. Andei mais uma quadra e outra surpresa: a Casa Milà, também chamada de La Pedrera, apareceu na esquina. Foi meu segundo prédio do Gaudí e dessa vez entrei (quatro euros), conheci a história e subi na laje com chaminés bizarras.
Essa região é chamada de "maçã da discórdia" devido às discussões geradas com a construção desses e outros prédios modernos por ali. O bairro L'Eixample, onde ficam essas casas, foi urbanizado durante um período de pujança econômica de Barcelona no início do século XX. Com isso, tudo de moderno na época foi utilizado ali, inclusive o estilo arquitetônico art nouveau, importado da França mas com um toque espanhol.
Acabei tendo de dar o braço a torcer e fui até La Sagrada Família, obra máxima do nosso amigo/gênio Antoni Gaudí. Ele só conseguiu ver pronta uma pequena parte da igreja pois morreu num acidente de bonde. Foi atropelado, o homem, mas decidiram continuar com a construção, que só teve uma pausa com a Guerra Civil. Durante o conflito, uma parte do que havia sido construído foi posto abaixo. A paz voltou a reinar (em termos) e a igreja voltou a subir. O projeto começou em 1883 e deve terminar em mais vinte anos. Voltarei lá pra inauguração da igreja mais estranha de todas.

No dia seguinte fui logo cedo ao Park Güell. Também obra do Gaudí. Parece que ele (o arquiteto, não o parque) é o principal ponto turístico de Barcelona! Ao descer no metrô Lesseps, a placa indicava que faltavam 1700 metros até o parque. E dá-lhe subida. Esse lugar seria um condomínio fechado se não tivesse sido um fracasso de vendas. A prefeitura comprou a área e a abriu ao público, que hoje agradece fazendo fila pra tirar foto com o bicho colorido que dá as boas-vindas a todos que entram.

Tudo ali é uma festa arquitetônica, mas, claro, naquele estilo bizarro que todos conhecem. Curvas, cacos de azulejo colorido, curvas, terra, natureza, coisas tortas... E, no fim, faz sentido. Fiquei uma hora andando por lá e observando os detalhes. Os turistas parecem não se importar muito com o significado daquilo e só sabem tirar fotos com a bela vista de Barcelona ao funco. Fazer o quê? São os mesmos que pisam num mosaico do Miró nas Ramblas sem sequer saber disso!

Dediquei o resto do dia a andar pela cidade. Fui em lugares que não tinha ido, becos estranhos que parecem a Cracolândia, o Parc de la Ciutadella, o Arc de Triomf, o Museu Picasso... Fiquei com preguiça de ir ao Montjuïc e ao Camp Nou, então fica pra próxima. À noite, estava deitado na cama lendo quando ouvi uma música vindo da rua... Como mágica, era "Barcelona". A própria na voz do Freddie Mercury e da Montserrat Caballé, aquela que marca minha primeira imagem externa da cidade!
Barcelona
It was the first time that we met

Barcelona
How can I forget

The moment that you stepped into the room you took my breath away

Barcelona
La música vibró

Barcelona
Y ella nos unió

And if God willing we will meet again someday
Foi o sinal divino. Em julho fará quinze ano que a ouvi pela primeira vez e fiquei sabendo da existência real da capital da Catalunha. Freddie Mercury ia cantar na abertura da Olimpíada mas morreu no ano anterior. Mesmo assim, passaram o clipe. Você se lembra? Pode ser brega até o último acorde, mas eu me lembro limpidamente.

Pode não ser que a cidade não seja tão fantástica quanto eu esperava, mas minha expectativa era muito mais alta que o razoável. Às vezes me lembrava Paris, às vezes não me lembrava nada e parecia um lugar único. Sim, foi a primeira vez que a gente conversou e fiquei um tanto apático. E claro que a gente vai voltar a se falar.

Um comentário:

Carolina Teixeira disse...

Obrigada pelo passeio!!!