segunda-feira, abril 02, 2007

É muito boa

Estávamos pensando no que faríamos durante o fim-de-semana. Como era de se esperar, as aulas no começo da semana da Páscoa não seriam nada interessantes... Pensamos seriamente em ir até o País Basco, mas de última hora decidimos que visitaríamos Lisboa.



Passagem comprada, chegamos à capital do país na noite de sexta-feira. Pegamos o metro e descemos na estação (lá eles chamam de "estação" mesmo, ao contrário daqui no Porto) Baixa-Chiado e subimos, subimos, subimos. Ficamos numa pensão que encontrei no guia, administrada por uma senhora portuguesa secular. Eu jamais me hospedaria ali se não fosse a dica do Lonely Planet... Por acaso, a localização era fantástica.

Procurando um lugar pra comer, entramos numa ruazinha e então descobrimos o Bairro Alto. Imagine várias vielas apertadas num sobe-e-desce constante, becos e muros pixados ou cheios de lambe-lambe. Em São Paulo seria uma região proibida, cheia de assaltantes... Pois ali é o coração da noite lisboeta. Cada porta é um bar diferente (boteco, influências brasileiras, influências mexicanas, música eletrônica...) e as ruas ficam lotadas de gente bebendo e conversando. É impossível passar em alguns lugares devido à lotação.

No meio de tudo, lojas. Várias lojinhas de design, novos estilistas e galerias de arte abertas até a madrugada. Da janela do nosso quarto víamos as pessoas subindo para o Bairro Alto durante a noite toda. Nesse momento eu já tinha entendido o esquema daquele lugar: é tudo liberado. Andando por lá, nos ofereceram maconha e cocaína várias vezes. O cara chega e pergunta: "haxixe?". O mais bizarro foi o que chegou perguntando as horas... Ao respondermos que não tínhamos relógio (paulista desconfia de tudo e todos, lógico), ele perguntou: "cocaína?". Mas são os costumes, minha gente.

Depois de termos sido alvo de paparazzi, entramos num restaurante lotado onde um homem tocava música bizarra num violão - "sou capira, pira pora, nossa senhora de aparecida..." e esse tipo de coisa, sendo que as pessoas cantavam junto. Seria uma cantina italiana, se cantinas italianas existissem fora de São Paulo. Vários gringos, locais e, claro, brasileiros. A conta de 16 euros nem pareceu tão grande assim dada a diversão sem limites.

Acordamos cedo no dia seguinte e fomos visitar a cidade. Começamos tomando um café com Fernando Pessoa na cafeteria A Brasileira, uma das mais antigas e conhecidas de Lisboa. O próprio Fernando vivia por lá, comendo e escrevendo. Hoje ele está imortalizado numa estátua que é um sucesso fotográfico. Descemos pelo Chiado vendo as lojas caras e chegamos à Baixa. Aqui cabe um pouco de história...
Era uma vez em Lisboa, no dia 1º de Novembro de 1755. Às 9h30, muita gente estava nas igrejas pois era dia de todos os santos. Outros andavam pelas ruas com seus afazeres cotidianos até que... tudo acabou. Três terremotos atingiram a cidade seguidamente. Um incêndio iniciou-se e, pra coroar, um maremoto atingiu a região na hora em que as pessoas fugiam para perto do Tejo. Saldo: 90 mil mortos, um terço dos moradores. Nem o palácio do rei resistiu.

A destruição da capital foi um choque fortíssimo em Portugal e na Europa. A cidade mais importante e mais religiosa do país tinha desaparecido em poucos minutos e as pessoas começaram a se perguntar quais foram as razões de Deus para aquilo ter acontecido.

Nessa espécie de 11 de setembro daqueles tempos, o Marquês de Pombal foi o Rudolph Giulianni de então. Primeiro-ministro, tomou as rédeas e iniciou o processo de reconstrução de Lisboa. A maior marca é a Baixa. De um emaranhado medieval surgiu a nova concepção: uma grade com ruas especializadas (rua da Prata, rua Áurea [do ouro], rua dos Sapateiros...) e uma rua que seria a principal (rua Augusta), terminando na nova Praça do Comércio.
A Baixa fica embaixo mesmo. Lisboa se assenta em sete colinas e a cidade toda tem ruas que sobem e descem. No alto de cada colina fica uma igreja e os lugares estratégicos têm miradouros (tradução: mirantes) de onde se tem vistas da cidade e do Tejo. O Tejo, aliás, é enorme. Quando eu lia nas aulas os poemas do Fernando Pessoa, imaginava Lisboa com um riacho no meio. Na verdade, fica ao lado e parece um mar.

Pegamos o eléctrico (tradução: bonde) e fomos até Belém, a cidade onde Jesus nasceu. Ops, essa Belém é outra... Bom, a cidade de que estou falando é famosa pelos pastéis. O tal pastel de Belém só pode usar esse nome se for feito numa fábrica específica que tem filas gigantes o dia todo. Os outros se chamam apenas "pastel de nata". Claro que comemos e claro que é muito melhor que o do Habib's.

Belém também é famosa porque era dali que saíam as caravelas em direção ao desconhecido. Em 1498, Vasco da Gama seguiu até o oceano e, então, até as Índias. Esse fato mudou a geografia econômica do mundo e transformou Portugal numa potência. Um tempinho depois, Pedro Álvares fez o mesmo e chegou ao Brasil. Daquela época só existem a Torre de Belém, que era uma fortificação para proteger Lisboa, e o grandioso Mosteiro dos Jerónimos.

O Mosteiro foi construído pelo rei no lugar onde Vasco da Gama fez, junto com seus companheiros de viagem, uma vigília na noite anterior à partida para as Índias. O rei disse que se Vasco voltasse com vida, ele construiria uma igreja... E construiu uma gigantesca onde hoje estão enterrados o próprio Vasco, Camões, Alexandre Herculano e Fernando Pessoa. Quase um panteão. Chegamos bem na hora em que acabava um casamento da alta-sociedade. Casar no Mosteiro não é pra qualquer um.

No dia seguinte acordamos mais tarde e pegamos o eléctrico 28. Noventa por cento dos passageiros eram turistas e suas câmeras enormes. Esse eléctrico passa pelas ruazinhas da Alfama, um dos bairros mais antigos e o com mais influências mouras, e é quase um trem assombrado. Aos trancos e barrancos, vai escalando os morros e passando por vielas onde ele raspa a lateral dos carros estacionados. Uma experiência.

Seguimos para o Parque das Nações, onde aconteceu a Expo 98. Lá não existia nada até então e a exposição mundial serviu para revitalizar a área. Vários escritórios e prédios residenciais começaram a surgir no entorno do Parque. Agora há a Gare do Oriente, um shopping (Vasco da Gama), uma torre (Vasco da Gama), um teleférico e uma ponte (Vasco da Gama). Eles gostam do cara. A ponte é a maior da Europa e uma das maiores do mundo, com dezessete quilômetros. A circunferência da Terra foi levada em consideração durante o projeto!



Os nossos vizinhos cariocas foram na semana passada e não gostaram. Agradeceram aos céus por ter vindo para o Porto. Não vi nada demais em Lisboa e teria gostado de ter ido pra lá. É uma cidade muito mais agitada culturalmente e cheia de turistas que aqui. Podem te oferecer maconha no meio da rua, mas isso é normal, não é mesmo? As fotos.

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