domingo, janeiro 28, 2007

Resumo do primeiro dia

Fiquei enrolando no aeroporto até que decidi entrar pra área de embarque. Um funcionário me viu com a passagem da Air France e disse "corre porque tá fechando". Cheguei e achei meu lugar entre uma senhora francesa e um jogador de futebol que iria se apresentar pro novo time na Romênia.

Depois do jantar (cenoura estranha, carne razoável e penne sem gosto), apagaram as luzes e as horas não passavam. Olhava para o mapa e estávamos no meio do Oceano Atlântico. Foi aí que começou uma turbulência que só foi acabar na África. Fiquei com medo do avião cair naquele continente pois poderíamos ter nossos corpos comidos por canibais. Aparentemente passaram-se horas, dei mais uma olhada no mapa e Marrakesh continuava lá em cima, firme e forte. Voltei a ver "A rainha", ainda inédito no Brasil. Assisti duas vezes.

Outra turbulência na Espanha, quase onze horas viajando com apenas quarenta minutos de cochilo, uma menina que chorava e chutava minha poltrona em horários inconvenientes e chegamos ao Charles de Gaulle com muitas nuvens e três graus de temperatura externa. Resquícios de gelo na pista.

Peguei a mala e fui seguindo as placas de "Paris par train". Várias máquinas vendiam bilhete na porta da estação e meu cartão não foi aceito. Tive a sensação que ele bloqueou, mas ainda não testei. Entrei na fila dos mortais (não sem antes ter trocado uma nota de dez euros por moedas numa incrível máquina que faz apenas isso) e comprei o passe. Quarenta minutos por 8,10 euros. Vim carregando um Le Monde que roubei na primeira classe do avião. Desci na minha estação, dei uma volta bizarra e desnecessária procurando a rua e cheguei ao hotel.

Devia ser umas 10h. O cara disse que o quarto só ficaria pronto às 16h. Saí pra andar e fui até Notre Dame. Esqueci minha máquina na mochila. Cheguei na catedral exatamente no fim de uma missa, quando o cheiro de incenso lá dentro era insuportável. Um órgão tocava música sacra/macabra e uma série de pessoas andava em fila com o cara do incenso na frente. Entrar na igreja é fácil, mas tem fila pra subir nas torres.

Segui o Sena com o objetivo de chegar à Torre. No caminho, um prédio. Não, um palácio. Não, algo absolutamente enorme. Talhado no mármore: Musée du Louvre. É gigante. Na verdade, é maior do que você imagina. É MUITO maior que isso que você está pensando. É absurdo. Passam carros dentro do museu. Não exatamente dentro, mas no espaço do pátio interior. A pirâmide de vidro continha aquela fila enorme e básica.

Andando pelo Jardin des Tuileries, ouvi vários sotaques (incluindo um grupo de mineiros), várias línguas e vi aproximadamente cinco mil japoneses com máquinas ultra-desenvolvidas. Lá longe, o Arco do Triunfo, na subida da Champs-Elysées. No Jardin, vários militares com metralhadoras. Senti a ameaça terrorista pela primeira vez.

Garotos pediam dinheiro para alguma causa social. Vestiam camiseta, bermuda e All Star. Provavelmente morrerão de pneumonia na semana que vem. Uma mulher pedia dinheiro para causa própria. Olhou pra mim e foi procurar outro. Opções: 1. não tenho cara de turista, 2. disferi um olhar destruidor na direção dela, 3. pareço pobre, 4. alguma outra.

Nesse ponto da caminhada já estava muito cansado, mas continuei em frente. Cheguei numa ponte cujo nome esqueci e voltei. Estava bem perto da Torre e inclusive já via o Trocadéro (onde ficava a Cinèmathéque Française) mas decidi voltar. Olhei a cúpula dourada do Hôtel des Invalides, um prédio escrito "République Française" (acho que é o Palácio do Eliseu, sede do governo) e fui continuei minha caminhada.

Vi a antiga estação de trem que virou o Museu D'Orsay. Filas enormes na porta. Nos "quais" (lê-se "qüés", as ruas que margeiam o rio), vários caras vendendo pinturas, fotos e livros baratíssimos – um dos títulos: "A incrível história de um cachorro durante a noite". Tem muita gente viajando sozinha por aqui. Você vê uma série de pessoas andando por aí e tirando fotos e em cada esquina tem um grupo com mapas abertos...

Me lembrei que Notre Dame fica numa ilha e decidi ver o que havia do outro lado. Cheguei no Hôtel de Ville, a prefeitura. É um pouco mais bonita que a prefeitura de São Paulo. Tem uma pista de patinação no gelo na frente e um carrossel. E um tobogã de gelo. Logo depois fui abordado pela japonesa que me achou com cara de parisiense e perguntou sobre uma rua que eu nunca ouvi falar.

Vi tubos coloridos no fim da quadra e fui dar uma olhada no Centre Georges Pompidou. Um cara fazia um show na frente e pessoas paradas observavam. Todos aqueles canos coloridos no prédio são muito legais. A praça ao lado, cheia de bizarrices, não tem graça alguma.

Voltei pro hotel pra esperar pelo meu quarto. O recepcionista perguntou se eu era espanhol. "Bresilien", respondi. "Rio de Janeiro?", ele disse num sotaque estranho.

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