Volare, ôô
Aí eu tentei dormir em Girona, um aeroporto nos arredores de Barcelona, de sexta pra sábado. Tava indo pra Roma cedo no dia seguinte e não havia outro jeito de chegar na capital italiana de forma barata. Um lugar frio, barulhento e desconfortável. Nunca mais durmo em Girona. Mas às dez da manhã vi o rio Tibre lá de cima, e perto dele o Coliseu. Também vi os flashs das câmeras dos turistas pipocando na Praça de São Pedro. Cheguei!
Roma
Peguei o metrô, ouvi "Próssima fermata: Termini. Uscita lado: destra" e desci. Antes que me perguntem: é "próssima" mesmo. E se diz "Términi". Com sotaque. Claro que dei a volta básica pela estação e entrei em quinze ruas erradas até achar o hostel, mas deixei minha mochila na recepção e fui andar. Meu primeiro objetivo era o Vaticano.
No meio do caminho encontrei minha primeira ruína. Existem aproximadamente seis milhões de ruínas em Roma, trinta e duas por esquina. Mas o Vaticano... Foi difícil achar o menor país do mundo. Como de costume, não olhei os mapas e segui meu instinto, invariavelmente errado. Fui atrás de toda e qualquer cúpula de igreja que achava e, depois de muito andar sob o sol escaldante daquele lado do Mediterrâneo, encontrei a Via della Conciliazione, espécie de entrada triunfal da casa de Deus.
Abri caminho no meio dos imigrantes ilegais vendendo bolsas Louis Vouitton falsas e entrei na Piazza di San Pietro. A primeira imagem daquilo tudo é impactante: o obelisco trazido por Calígula direto de Heliópolis (no Antigo Egito, não na favela) há dois mil anos, as colunas projetadas por Bernini e a Basílica. A cada quinze minutos tocam os sinos. Milhares de turistas tirando fotos e aquela fila interminável pra passar pelo detector de metais...
Vi os guardas suíços e fui pra cripta procurar os túmulos dos papas. O do São Pedro tem poucos turistas porque todos querem ver o do João Paulo II, fortemente guardado por seguranças que nos proíbem de tirar fotos. Entrei na igreja e a emoção ficou por conta da "Pietà", uma das obras-primas do Michelangelo. Fantasticamente iluminada e protegida por uma vitrine, parece que vai andar a qualquer momento. Incrível.
Fui ao Museu Vaticano no outro dia, mas acho válido já escrever neste parágrafo. Depois de uma longa fila, pode-se ver milhares de obras roubadas/ganhadas/emprestadas para e pelos papas. Os turistas estávamos mesmo loucos para encontrar a Capela Sistina, igreja pessoal do Santo Padre, cujo teto foi pintado por Michelangelo. Ela conta com aquela que é uma das imagens mais conhecidas da história, dos dedos de Deus e Adão se tocando no momento da criação. Não foi nada emocionante, confesso.
E o Coliseu? Também foi impactante vê-lo pela primeira vez, brilhando ao sol no fim da Via dei Fori Imperiale. Mas dentro... Dentro não tem graça. É uma grande, enorme ruína. Está passando por reformas há vários anos e espero que um dia fica mais interessante. Nem o áudio-guia serviu para melhorar... Enfim, é preciso ter muita imaginação e força de vontade para fechar os olhos e imaginar como ele era há dois mil anos, lotado com cinqüenta mil romanos gritando enquanto um gladiador lutava com um animal exótico.
Bem perto fica o Forum Imperial, ou Forum Romano, ou simplesmente Forum. O centro da vida na época, era naquele lugar que as pessoas se encontravam, conversavam, fofocavam e acompanhavam a vida política. Ainda existem vários prédios (tradução: ruínas), incluindo o lugar onde o Senado fazia suas sessões. É incrível pensar que muito da civilização ocidental surgiu ali há tanto tempo.
Subindo o Palatino, onde os chiques e famosos da Roma antiga construíam suas casas, podemos ver mais ruínas e, lá no fundo, o que sobrou do Circus Maximus, onde aconteciam as conhecidas corridas de biga. Quem nunca viu uma nos filmes? Pois bem, o que sobrou do Circus é... nada. Existe um grande descampado no lugar e, agora sim, a pressão sobre sua criatividade chega a níveis máximos. Feche os olhos e imagine...
Outra das grandes atrações da cidade é simplesmente andar por suas ruas sujas. Não se esqueça de NÃO olhar para os dois lados quando for atravessá-las! Em Roma funciona assim: se não tiver sinal para pedestres, você põe o pé no asfalto e vai. Aproveita que tá bem perto do Papa, peça proteção aos céus e atravesse sem medo. Se você olhar para os lados e ficar no vai-não-vai, os carros não param! Depois de se acostumar ao sistema italiano de trânsito, visite o centro.
Há milhões de turistas andando perto das dezenas de piazzas: Navona (onde fica a embaixada do Brasil), di Spagna (onde existe uma escadaria que fica lotada de gente vendo gente e gente sendo vista) e, claro, a megalomaníaca Fontana di Trevi. Muita, muita gente senta em frente à fonte e muita, muita gente joga suas moedinhas na expectativa de um dia voltar à cidade. Aproveite pra jogar a sua e depois ficar olhando enquanto toma o seu verdadeiro "gelato".
Florença, Pisa e Milão
Mas um dia você cansa de ficar na Cidade Eterna e pega o caminho pra Florença. Nada como estar a 300 Km/h num trem projetado pelo Sérgio Pininfarina. Mas como a Itália é Brasil, às vezes atrasa. E enquanto estava dentro do vagão esperando a partida, pedintes entraram delicadamente solicitando aos passageiros uma pequena doação de euros.
Pela primeira vez em meses, fui direto pro hostel sem erros. Depois tinha uma cidade a visitar e saí andando sem mapa, claro. Cheguei ao Duomo, a principal igreja da cidade. Mais parece feita de açúcar. Em frente a ela fica o Battistero, onde, dentre outros, Dante foi batizado. Mas Florença é a cidade onde surgiu o Renascimento e, como tal, tem a maior coleção de arte renascentista do mundo. Fui vê-la na Galleria degli Uffizi, coleção da família Medici que foi doada à cidade com a condição de nunca sair dali.
A placa na porta da Galleria dizia que a fila duraria entre uma e duas horas. Durou duas, claro. Pra minha felicidade e alegria, uma excursão de italianos vindos da Escola Técnica Industriale surgiu e ficou durante os próximos cento e vinte minutos gritando ao meu lado. Viva! Fiquei uma meia hora no museu e acho que essa foi a primeira vez que estive menos tempo dentro do que na fila... Eu não gosto do Renascimento. Vi uns quadros importantes, duas obras fundamentais do Botticelli e não pude apreciar "Anunciação", do Leonardo da Vinci, pois estava emprestada. Era o quadro que eu mais queria ver.
Como eu adorei a idéia de ficar horas numa fila, ainda resolvi visitar, no mesmo dia, a Galleria dell'Academia. Não tem nada lá, fora o "David", obra-prima do Michelangelo. Mais duas horas debaixo do sol escaldante e seis euros pagos para ver uma escultura. Às vezes eu não entendo essas coisas... Enfim, o "David" tem cinco metros de altura e é perfeito. Um pouco satisfeito, continuei andando pela cidade até o anoitecer. Mais um "gelato" em frente ao Duomo enquanto via o movimento.
No dia seguinte percebi que já tinha visto a cidade toda. Florença é muito pequena... A californiana que eu conheci no hostel de Roma tinha me dito que a cidade era fantástica... Que coisa. "Eu andava pelas ruas e pensava 'Uau! Michelangelo e Rafael andaram por aqui!' Foi incrível!". Isso foi o que ela disse.
Minha opinião é que a cidade não tem charme algum. Por mais que Rafael, Michelangelo, Maquiavel, Botticelli e amigos tenham andado por ali, foi numa época em que não havia um milhão de turistas em cada esquina, não havia centenas de camelôs (brasileiros incluídos) e que não havia duzentas mil lojas em cada rua. Florença se vendeu totalmente ao turismo. É isso.
Entrei no primeiro trem que apareceu com destino a Pisa. Como eu nunca irei à Itália apenas para isso, decidi que aquela era a hora de visitar a Torre. Aquela. Cheguei no lugar, tirei fotos e fiquei no sol durante uma hora. Já tinha pago cinco euros pra ir e teria de pagar mais cinco pra voltar... Resolvi deitar na grama por um tempo ao invés de voltar em seguida.
Na outra manhã tive de acordar cedo pois iria novamente viajar a 300 Km/h em direção à Stazione Milano Centrale. O trem veio de Nápoles com dez minutos de atraso e antes dele chegar imaginei que teria sido explodido pela Máfia... No caminho passamos por Parma, onde fiquei procurando em vão pela fábrica da Parmalat, e por Bolonha. Ao chegarmos numa cidade cujo nome não me lembro, tivemos de ficar mais meia hora esperando pois havia problemas na linha.
Agora vem o fato interessante. Fora os vários engravatados e engravatadas seguindo para trabalhos e reuniões inadiáveis em Milão (pra quem não sabe, Milão é tipo a São Paulo da Itália, onde se trabalha, dizem), havia dentro do trem basicamente turistas. Ignorando completamente isso, todos os avisos que o maquinista dava eram apenas em italiano! Coisas do tipo "vamos parar aqui de uns vinte a trinta minutos" ou "quem vai pra Turim e não quer ficar esperando, tem um trem na plataforma um que tá saindo pra lá agora". Imagino como eu ficaria se estivesse nessa situação e não entendesse nada do que estava sendo dito pelos alto-falantes...
(Porque, por incrível que pareça, é fácil entender italiano quando não se fala nada mais que "io soi brasiliano!", mesmo que isso esteja completamente errado. Claro que muitas vezes não é fácil. Quando eles conversam entre si, por exemplo, é impossível entender. Ou então nas primeiras vezes: na minha primeira incursão num McDonald's romano, demorei cinco segundos pra entender quando o ragazzo me perguntou se eu ia "mangiare qui". Depois você se acostuma e fica fácil falar "Uno gelato di straciatella, per favore!" e "Ciao, grazie!". Sempre com sotaque.)Tinha pouquíssimas horas em Milão e fui de metrô até a praça do Duomo. Por um acaso, Duomo é a igreja. No caminho, procurei encontrar modelos conhecidas, mas não obtive sucesso. Ainda tive tempo de comer na Galleria Vittorio Emanuelle II, um lugar onde ficam lojas chiques milanesas. Aí peguei o ônibus pro aeroporto. Estava na metade do dia em que tomei café numa cidade, almocei numa segunda e jantei numa terceira, já em outro país.
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